A rua tranquila com asfalto duramente esburacado e casas familiares de fachadas antigas, algumas conservadas e outras se aguentando, meramente contornadas com o resquício do fim do pôr do sol que contrasta com suas cores pastéis. Em meio as construções um muro alto, cor de concreto, portão único desgastado pelo tempo que ainda conserva o leve verde de sua origem se destaca. Não há placas ou explicações. São quase sete horas da noite quando a rua, que parecia tão deserta, começa a formar sua barreira de carros contínua. O portão se abre. A casa de três cômodos ocupa da metade pra trás o terreno que é pequeno para o padrão da rua, a cozinha mínima que se restringe à pia e a geladeira e fogão doados fica do lado de fora.
As pessoas se deslocam sob um leve caminho de pedregulhos, que beirava um jardim que acompanhava o muro até o começo da casa. Iam em direção a senhora de idade que as recepciona com um largo sorriso de dentes levemente amarelados e um boa noite sereno seguido da entrega da senha. São direcionadas então às diversas cadeiras dispostas em filas. Altas, baixas, com ou sem encosto, de madeira ou tecido, pretas, marrons, verdes e vermelhas, com ou sem conforto. Nas paredes cartazes informando a agenda. Segundas, 19:30, atendimento médico. Frases que se confundem como bíblicas escritas simetricamente com canetinha, em papéis sulfite coloridos, embelezam a decoração e emanam esperança para as feições caladas e sem palavras dos que aguardam sentados. Há muitos em pé. Todos seguram o pequeno papel cortado em quadrado e plastificado, a senha.
Os sentimentos se espalham, misturam, se confundem e intrigam as diferentes razões que levam o pequeno terreno a lotar. O respeito pelo local de fé impõe o silêncio e a educação entre os conhecidos se restringe à apenas um leve chacoalhar de cabeça ou um escondido sorriso que foge do canto da boca. Chegou a hora! A simpática senhora da senha avisa o início da sessão e até o vento se inibe com seu assobio.
Um senhor de calça social e camisa salmão sai da cozinha e se posiciona a vista de todos. Algumas palavras de acolhimento e logo vem alguns versículos da Bíblia enriquecidos com uma explicação ligada ao espiritismo. Trinta minutos se passam como quinze segundos e a tensão inicial desaparece com o boa noite do palestrante. Duas crianças, que ali estavam próximas dos pais, o tempo todo namorando a curiosidade do jardim, puderam se libertar após o olhar de permissão materno e descobrir o gato que se escondia nas folhagens. A área das cadeiras agora flui aos sons das conversas de seus ocupantes. E os números aparecem. Senhas um à cinco podem sentar no banco perto da sala, diz a simpática senhora.
Enquanto isso, a sala três se prepara. A sala é de um branco puro que banha paredes, teto, chão, maca, bancos e as vestes das cinco pessoas que aguardam para o início dos trabalhos. Um único quadro com a imagem de Jesus ganha destaque na parede oposta à porta. Senha um por favor, chama o garoto. A mulher, que traz nas mãos duas garrafas plásticos de água, sorri e o acompanha entregando-lhe a senha e soletrando seu nome para a garota das etiquetas.
A recepção na sala três é feita por duas outras senhoras de jaleco que a questionam da razão da vinda e posicionam-na deitada de barriga para cima na maca. O quinto na sala é um homem de pele clara, magro, calvo, olhos claros e sobrancelhas altas. É ele quem reduz a intensidade da luz no interruptor e posiciona na tomada dois jatos de luz azul que pintam o branco puro da parede. O espírito do Dr. Paulo está presente. A energização começa. O homem, com suas mãos suspensas no ar, balança levemente os pulsos próximo aos tornozelos da mulher deitada, que, mesmo não sentindo o toque, sorri pelo conforto da carícia. Ele então questiona detalhes relacionados à dor que a incomoda nos dois anos que reside a cidade. Detalhes não antes comentados desde sua decisão de ir ao Centro Espírita. As perguntas fluem como se o homem a conhecesse intimamente ou como se apenas repetisse as palavras que compõem as frases que outro alguém sussurra ao pé de sua orelha naquele exato momento. As respostas vêm mais rápidas que o intervalo de um suspiro e embebidas de uma surpresa inexplicável que força os olhos a se arregalarem. A orientação está feita, as dúvidas dissolvidas, a esperança acesa, além da fé reafirmada. O homem termina novamente com as mãos suspensa no ar, porém agora sob as duas garrafas, então, guiado pelo espírito benfeitor, a água se fluidifica, magnetiza. E logo sai da sala a mulher com sua água magnetizada, que será de consumo diário religiosamente, seu papel com as orientações dentro de um envelope com a etiqueta do seu nome grudada e um sorriso largo e despreocupado.
Que venha o número dois, brinca um deles e completa, começamos bem hoje. Assim segue a fila. Três...cinco...doze... E uma criança assonada chega no colo de sua mãe. A menina tem pneumonia e deita-se na maca. Um sentimento de pena impera a sala pequena. É a quarta e última visita delas ao atendimento médico. As perguntas tem respostas positivas e os olhos da mãe se enchem de lágrimas que inundam a sala de devoção eterna. Ela não se contém e agradece chorando. A menina adormecida na maca nada fala. É tarde para ela, já passara das nove... As duas deixam a sala com água magnetizada.... quem não leva a sua, ganha uma pequena garrafinha.
Quinze... As saídas da sala três proporcionam alegria para os que esperam e os sorrisos pintam a verdadeira paisagem do Centro que não pudera ser percebida devido a tensão que cercava as pessoas antes de serem atendidas. O jardim então foi se pintando com suas verdadeiras cores. Dezessete.... O lugar vai se esvaziando. Os muitos que estavam de pé agora ocupam as cadeiras que vão se desocupado.
Vinte e três.....e finalmente o último. Trinta senhas, trinta cadeiras, entretanto, nunca só trinta pessoas. Os que vêm estão cercados pela insegurança, dúvida, receio apoiando-se assim nos familiares que os acompanham e presenciam tudo a um palmo de distância. São mães, filhos, pais, avós, homens e mulheres, crianças, brancos e negros, todos com propósito de deitar naquela maca e sentir o conforto da carícia que eleva a alma, aconchega o pensamento, ilumina o caminho e fortalece a confiança.
A essa hora o céu já solidificava seu azul intenso e a lua crescente e brilhante permite aos últimos uma completa e detalhada visão do jardim que às sete horas estava desbotado. Flores que se perdiam entre galhos e plantas. Vermelhos, verdes, amarelos e roxos, quase uma perfeita combinação com as cadeiras.
Aos poucos, a rua foi se esvaziando. Os carros cobertos pelo sereno se vão e sobram apenas três dispersos e estacionados longes do portão verde. Os cinco da sala três: foram os últimos a chegar e os últimos a sair.
Quem não consegue atendimento fica encaminhado para agendamento, mas o segredo é chegar cedo.
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quinta-feira, 14 de julho de 2011
terça-feira, 3 de agosto de 2010
A fé que move cadeiras
O dia começa cedo. Sete horas ela já está acordada, enrolada em seu roupão predileto, direto pra cozinha porque o café chama. O marido vai trabalhar e os filhos vão pra escola. A casa foi reformada, os batentes são mais largos agora, “gordos” nas palavras de Fátima Castro.
Às nove horas sua jornada inicia. Estaciona cuidadosamente entre o abajur e a mesinha de canto, a vaga é justa. Sob o móvel está aquilo que não a fez desistir de sua grande missão de passar os ensinamentos Dele. O telefone surrado, de uma tonalidade amarelada judiada pelo tempo, é seu melhor amigo, sua mais direta comunicação com os que precisam de um conselho. Depois do brutal acidente, naquele dia chuvoso de outubro de 98, a embriaguez de um jovem arrancou-lhe os movimentos das pernas, obrigando à eterna dependência da cadeira de rodas. Seu nome é Fátima, uma homenagem da mãe à santa que, também em imagem, ilumina um dos cantos da sala. A fé aquece o resto.
No pequeno móvel também estão fotos de Fátima em momentos familiares anteriores ao acidente. Ela flerta com as lembranças. Em seu colo, quase como um bebê, a lista telefônica e a Bíblia repousam aguardando a iniciativa da mulher de 54 anos. As folhas amarelas então se abrem, a página se escolhe, o dedo liso arrasta pelos tantos nomes e para. O telefone sai do gancho, as teclas pressionadas determinam a direção e duuuuu, duuuuuu, duuuuuuu... a ansiedade contrai o corpo e comprime a pequena sala. “É o mesmo nervosismo de quando vamos conhecer alguma pessoa pela primeira vez”, explica.
Todos os dias, logo depois do café, seu marido traz os jornais da cidade e da região para ela. “Quero saber de tudo que acontece mesmo que eu não possa ver”, conta. Às quintas-feiras é o dia dos telefonemas, assim como era o dia da caminhada das carolas.
Quando mudou para Indaiatuba, em 1995, Fátima frequentou uma igreja católica e logo integrou o grupo de senhoras que, toda semana, saiam pela cidade batendo nas portas para contar um pouquinho da história de Deus. “Parecíamos um grupo de meninas, todas animadas com as Bíblias debaixo do braço”, relembra com os olhos molhados. Das oito, apenas ela tinha um jeito diferenciado de conquistar quem atendia a porta. As conversas que mais duravam eram as dela. “É chato só escutar alguém falar, o melhor é a conversa. Eu escolhia um trecho que dava pra contar sobre Deus e tinha a ver com o que saia nos jornais”.
Duuuuuuu, duuuu... “Alô?”, escutou ela e, ao mesmo tempo, o coração desafogou da tensão de segundos atrás. “Olá, bom dia. Tudo bem com a senhora?... Que bom! Será que a senhora teria um minutinho para conversar comigo?... Garanto que fará bem tanto pra senhora como para mim”, começava sempre assim suas ligações. A pequena senhora, de corpo curvilíneo, altura média sem a exatidão dos centímetros, cabelos pintados de chocolate e sorriso largo relaxava em sua cadeira companheira. Seu único interesse era que as pessoas conhecessem melhor o mundo, sua história, seu Criador e o Salvador. Não era importante seu nome ou o do outro alguém, o encontro era apenas telefônico.
“Às vezes fico mais de meia hora no telefone só conversando sobre o mundo dentro daquele versículo e, quando digo tchau que me dou conta que nem sei quem é a pessoa que estou conversando”, conta. “O anônimo dá mais segurança pra falar”.
São poucas e raras as vezes que sua Bíblia saía do colo, no aconchego da manta que cobre suas pernas. O remorço ainda cerca seus olhos com uma leve olheira das vezes que chora por não poder mais andar. Queria ela estar preparando os bilhetes que o grupo de carolas imprimia e deixava nas lojas por onde passavam. Sua devoção à igreja e, principalmente, a Deus é que a mantiveram forte para continuar nessa estrada.
Desde pequena frequentava as missas junto da mãe. Foi batizada, catequizada, foi coroinha, passou pela primeira comunhão, ajudou em quermesses e festas de paróquia de várias igrejas. A caminhada das carolas era sua maior paixão, sentia estar fazendo o bem para o próximo toda vez que alguém aceitava conversar com ela. Quando o sol ameaçava se pôr na quinta-feira, Fátima já torcia para a semana correr. Era ela a capitã desta equipe, ela que escolhia os bairros, marcava as datas, combinava e organizava. Não tinha um frequentador da igreja que não conhecesse a Fátima das carolas.
O acidente enterrou sua fama. A primeira vez que voltou para casa empurrada em sua cadeira de rodas, Fátima chorou, xingou, odiou e se revoltou indignada por ter sido ela e não o motorista embriagado. Naquela noite, Deus foi duvidado.
A resposta veio com a visita do padre que a recarregou de fé. Ainda assim, sua vida precisava de luz e, foi quando teve a ideia dos telefonemas religiosos. O pequeno caderno telefônico ao lado do telefone teve sua primeira anotação três dias depois de sua decisão. Desde lá, Fátima já tem três outros caderninhos empilhados ao seu dispor.
Mesmo não andando com as carolas, Fátima segue nessa jornada que, semanalmente, ela registra em seus cadernos as conquistas dos novos amigos. Essa semana foram onze diferentes telefones que receberam aquela voz doce, leve e recheada de fé e gratidão. Às vezes um desiste, mas logo outro ocupa esse lugar.
“O que a senhora acha de conversarmos sobre isso mais vezes?... Que bom! Então, será que eu posso deixar um salmo pra senhora ler e conversarmos mais na semana que vem?... Salmo 82:19... Até semana que vem então e fique com Deus!”, finaliza a última ligação do dia, quase quatro horas da tarde. O telefone toca o gancho, Fátima sorri e olha para sua santinha que a ilumina do canto da sala. Como se a imagem conversasse, as Fátimas concordam com a boa fé da ação e a resposta vem com um suspiro folgado e a leve anotação de um coração na folha de papel que dizia: tarefas de hoje.
Às nove horas sua jornada inicia. Estaciona cuidadosamente entre o abajur e a mesinha de canto, a vaga é justa. Sob o móvel está aquilo que não a fez desistir de sua grande missão de passar os ensinamentos Dele. O telefone surrado, de uma tonalidade amarelada judiada pelo tempo, é seu melhor amigo, sua mais direta comunicação com os que precisam de um conselho. Depois do brutal acidente, naquele dia chuvoso de outubro de 98, a embriaguez de um jovem arrancou-lhe os movimentos das pernas, obrigando à eterna dependência da cadeira de rodas. Seu nome é Fátima, uma homenagem da mãe à santa que, também em imagem, ilumina um dos cantos da sala. A fé aquece o resto.
No pequeno móvel também estão fotos de Fátima em momentos familiares anteriores ao acidente. Ela flerta com as lembranças. Em seu colo, quase como um bebê, a lista telefônica e a Bíblia repousam aguardando a iniciativa da mulher de 54 anos. As folhas amarelas então se abrem, a página se escolhe, o dedo liso arrasta pelos tantos nomes e para. O telefone sai do gancho, as teclas pressionadas determinam a direção e duuuuu, duuuuuu, duuuuuuu... a ansiedade contrai o corpo e comprime a pequena sala. “É o mesmo nervosismo de quando vamos conhecer alguma pessoa pela primeira vez”, explica.
Todos os dias, logo depois do café, seu marido traz os jornais da cidade e da região para ela. “Quero saber de tudo que acontece mesmo que eu não possa ver”, conta. Às quintas-feiras é o dia dos telefonemas, assim como era o dia da caminhada das carolas.
Quando mudou para Indaiatuba, em 1995, Fátima frequentou uma igreja católica e logo integrou o grupo de senhoras que, toda semana, saiam pela cidade batendo nas portas para contar um pouquinho da história de Deus. “Parecíamos um grupo de meninas, todas animadas com as Bíblias debaixo do braço”, relembra com os olhos molhados. Das oito, apenas ela tinha um jeito diferenciado de conquistar quem atendia a porta. As conversas que mais duravam eram as dela. “É chato só escutar alguém falar, o melhor é a conversa. Eu escolhia um trecho que dava pra contar sobre Deus e tinha a ver com o que saia nos jornais”.
Duuuuuuu, duuuu... “Alô?”, escutou ela e, ao mesmo tempo, o coração desafogou da tensão de segundos atrás. “Olá, bom dia. Tudo bem com a senhora?... Que bom! Será que a senhora teria um minutinho para conversar comigo?... Garanto que fará bem tanto pra senhora como para mim”, começava sempre assim suas ligações. A pequena senhora, de corpo curvilíneo, altura média sem a exatidão dos centímetros, cabelos pintados de chocolate e sorriso largo relaxava em sua cadeira companheira. Seu único interesse era que as pessoas conhecessem melhor o mundo, sua história, seu Criador e o Salvador. Não era importante seu nome ou o do outro alguém, o encontro era apenas telefônico.
“Às vezes fico mais de meia hora no telefone só conversando sobre o mundo dentro daquele versículo e, quando digo tchau que me dou conta que nem sei quem é a pessoa que estou conversando”, conta. “O anônimo dá mais segurança pra falar”.
São poucas e raras as vezes que sua Bíblia saía do colo, no aconchego da manta que cobre suas pernas. O remorço ainda cerca seus olhos com uma leve olheira das vezes que chora por não poder mais andar. Queria ela estar preparando os bilhetes que o grupo de carolas imprimia e deixava nas lojas por onde passavam. Sua devoção à igreja e, principalmente, a Deus é que a mantiveram forte para continuar nessa estrada.
Desde pequena frequentava as missas junto da mãe. Foi batizada, catequizada, foi coroinha, passou pela primeira comunhão, ajudou em quermesses e festas de paróquia de várias igrejas. A caminhada das carolas era sua maior paixão, sentia estar fazendo o bem para o próximo toda vez que alguém aceitava conversar com ela. Quando o sol ameaçava se pôr na quinta-feira, Fátima já torcia para a semana correr. Era ela a capitã desta equipe, ela que escolhia os bairros, marcava as datas, combinava e organizava. Não tinha um frequentador da igreja que não conhecesse a Fátima das carolas.
O acidente enterrou sua fama. A primeira vez que voltou para casa empurrada em sua cadeira de rodas, Fátima chorou, xingou, odiou e se revoltou indignada por ter sido ela e não o motorista embriagado. Naquela noite, Deus foi duvidado.
A resposta veio com a visita do padre que a recarregou de fé. Ainda assim, sua vida precisava de luz e, foi quando teve a ideia dos telefonemas religiosos. O pequeno caderno telefônico ao lado do telefone teve sua primeira anotação três dias depois de sua decisão. Desde lá, Fátima já tem três outros caderninhos empilhados ao seu dispor.
Mesmo não andando com as carolas, Fátima segue nessa jornada que, semanalmente, ela registra em seus cadernos as conquistas dos novos amigos. Essa semana foram onze diferentes telefones que receberam aquela voz doce, leve e recheada de fé e gratidão. Às vezes um desiste, mas logo outro ocupa esse lugar.
“O que a senhora acha de conversarmos sobre isso mais vezes?... Que bom! Então, será que eu posso deixar um salmo pra senhora ler e conversarmos mais na semana que vem?... Salmo 82:19... Até semana que vem então e fique com Deus!”, finaliza a última ligação do dia, quase quatro horas da tarde. O telefone toca o gancho, Fátima sorri e olha para sua santinha que a ilumina do canto da sala. Como se a imagem conversasse, as Fátimas concordam com a boa fé da ação e a resposta vem com um suspiro folgado e a leve anotação de um coração na folha de papel que dizia: tarefas de hoje.
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